
Apesar dos anos passarem sem nenhuma intenção de passos lentos, toda vez que eu sentia como que não pudesse mais reter o momento que se colocava a minha frente, olhava fixamente no espelho a procura de meus olhos, como quem procura a própria impressão digital...
Lembro perfeitamente da primeira vez que os vi, acredito que na época deveria ter uns cinco anos talvez, chorava e buscava consolo nas lágrimas que rolavam no rosto e partiam, uma após a outra, era como a materialização da tristeza e o olhar capturando e aprisionando só para si um sentimento. Quem no mundo tem o poder de capturar um sentimento senão a própria retina? Naquele momento fiquei maravilhada com a minha descoberta e entendi que sempre que quisesse enxergar com veracidade um Eu que só a mim cabia ver e agarrar os sentidos, ali estaria.. em frente aos espelhos a procurar pelos meus olhos..
Acreditei por toda minha vida que essa era a forma de chegar mais próximo de minha alma. Percebia que tudo se modificava com o passar dos anos, o rosto estava tomando uma expressão mais séria e as pernas começaram a doer, os cabelos dos cachos aos brancos, de saltos finos a chinelos, e de filha que sempre fui, agora tenho três netos.. comecei a contar as portas que fizeram parte dessa jornada, quantas abri e quantas fechei? e qual a trilha sonora de minha vida? quais foram meus poetas... quem foi meu grande amor? e quantos meus melhores amigos? Gostava do meio da tarde e do silêncio da casa que ali se estabelecia.. sabia que não era um silêncio definitivo, nunca gostei da palavra"definitivo".. a contagem era definitiva, as rugas... o pensamento mais lento e a visão menos colorida.. o definitivo não tinha bons antecedentes, por isso me abstinha de sua companhia. Porém no meio de tudo isso não poderia esquecer dos espelhos que foram muitos, eles sempre estavam lá pra eu perceber que mesmo que tudo tomasse nova forma, meus olhos continuavam lá firmes, verdes e profundos, contando as histórias, dividindo as décadas, intitulando o passado, armazenando... era praticamente uma videoteca particular, meu mundo guardado em prateleiras dentro de mim, trancafiado, e a porta era ali.
Hoje acordei bem cedo porque senti saudades de mim, tirei os óculos e me deparei com a crueldade da vida e como ela pode ser totalmente definitiva, com a impotência de não poder voltar atrás e o desespero de saber que nem o grito me consola.. sim, tirei os óculos e me dei conta que não conseguia mais enxergar meus próprios olhos, o olhar deles para eles.. a menina de cinco anos que me acompanhava foi se embora... a tristeza da perda se estabeleceu.


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